VOCÊ JÁ IMAGINOU UM SOFTWARE QUE ESPIONE VOCÊ NA EMPRESA?

Por Luiz Eduardo Gasparetto

Leia este artigo publicado na HSM Inspiring Ideas de autoria de Alexandra Delfino de Sousa

A possibilidade de existir nos escritórios um software que monitore reações fisiológicas dos funcionários, de modo a identificar se estão sob estresse ou não, tem gerado polêmica no mundo empresarial. Ao anunciar a patente do software, a Microsoft explicou que o objetivo é contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas no trabalho, uma vez que, conhecendo o nível de estresse das pessoas, os seus líderes poderão adotar medidas para amenizá-lo. O programa também seria um auxiliar na seleção de pessoal, quando funções que exigissem maior controle emocional estivessem em jogo. É o que acontece normalmente na NASA, para selecionar astronautas e também para monitorar seu desempenho. Transferir essa tecnologia para o escritório está deixando alguns sindicalistas irritados – e não apenas os sindicalistas.

O software, que já foi apelidado de espião, trabalha com sensores sem fios que são acoplados aos microcomputadores. A partir do ritmo dos batimentos cardíacos, da temperatura do corpo, da respiração, da expressão facial e da pressão sangüínea do usuário, o programa envia mensagens a uma central de acompanhamento, alertando para uma possível ansiedade. Além disso, o sistema permite que as palavras digitadas sejam gravadas e que os sites visitados pelos funcionários sejam também monitorados – o que já não é novidade.

Finalidades outras – Entre os especialistas, a questão principal é “Que uso se faria de tais informações?” Um funcionário pode estar nervoso e ofegante devido ao trânsito que o fez chegar atrasado ou pode estar fraudando a empresa. Luiz Eduardo Gasparetto, consultor de empresas e professor da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), de São Paulo (SP), consegue prever muitas coisas que podem interferir no estresse da pessoa, inclusive problemas que ela traz de casa. “Essa medição seria feita numa situação do dia-a-dia, não num ambiente controlado. Se o ambiente estiver muito quente, por exemplo, o indivíduo começará a suar demais e os sensores serão afetados.” Para o consultor, na prática, não haverá pessoas preparadas para avaliar cada detalhe e, além disso, o uso concreto dos dados está sujeito à natureza humana. “Não será difícil vermos os chefes utilizando as informações do programa para perseguir alguém, impor sua vontade e fortalecer seu poder.”

Gasparetto lembra que controlar uso do e-mail da empresa, ou o tipo de uso que o funcionário faz da Internet no ambiente de trabalho é aceito, porque a decisão vai para as mãos dos funcionários. “Eu conheço as normas. Se as infrinjo, é uma escolha minha. A empresa pode analisar meu comportamento e até me punir de algum modo. Já o meu nível de estresse é uma condição interna, não uma ação, o que é bem diferente”. O consultor deixa clara sua desaprovação em relação à novidade anunciada.

Mais relações responsáveis e menos monitoramento – Carlos Campos Pereira, psicólogo e professor do Centro Universitário Newton Paiva, de Belo Horizonte (MG), tem opinião similar à de Gasparetto. Para ele, o uso do software seria um retrocesso em relação aos avanços nos conceitos da gestão de pessoas. A visão da pessoa como um “recurso” humano foi dando espaço à visão de “relações” humanas, com o adequado desenvolvimento de responsabilidades de ambas as partes.
Se a intenção é realmente ajudar as pessoas a lidarem com as emoções, Pereira prescreve a Psicologia. “É uma ciência a favor do ser humano. Acho que devemos usar esse aplicativo, em forma de grupos de apoio, processos de feedback e outras propostas – e não uma parafernália eletrônica e espiã”.

Clima de inverno – Ambos os especialistas consultados concordam que ninguém está preparado para ver sua vida descortinada, muito menos no ambiente empresarial. O clima organizacional seria negativamente afetado, o que é prejudicial para a própria empresa.

Tatiana Conti, assistente de franquias, lembra que já trabalhou em uma empresa na qual era monitorada por câmeras o tempo todo e que se sentia desconfortável. “Com o tempo, porém, descobri uma samambaia que poderia ser colocada entre mim e a câmera, o que me deixou mais relaxada.” Rindo, Tatiana ironiza: “Difícil será instalar uma samambaia na rede, para impedir a comunicação entre meu micro e a tal central de monitoramento”. Como a criatividade humana é capaz de realizar maravilhas, talvez esse desejo seja só a semente de um antídoto.

Categories: Carreira, Gestão

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